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Poesia -Negra

NEGRA!

Negra! negra! como a noite
d’uma horrível tempestade,
mas,linda, mimosa e bella,
como a mais gentil beldade!
Negra! negra! como a asa 
do corvo mais negro e escuro,
mas, tendo nos claros olhos,
o olhar mais límpido e puro!

Negra! negra! como ébano,
seductora como Phedra,
possuindo as celsas formas,
em que a boa graça medra!
Negra! negra!… mas tão linda
co’os seus dentes de marfim;
que quando os lábios entreabre,
não sei o que sinto em mim!…

Só! negra, como te vejo,
eu sinto nos seios d’alma
arder-me forte desejo,
desejo que nada acalma.
Se te roubou este clima
do homem a cor primavera;
branca que o mundo viesses,
serias das filhas d’Eva
em belleza, ó negra, a prima!…
gerou-te em agro torrão;
S’elevar-te ao sexo frágil
temeu o rei da criação;
é qu és, ó negra creatura,
a deusa da formosura!…
Joaquim Cordeiro da Mata
Poesia africana de Língua Portuguesa – Angola
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Poema

África,
dos encontros, dos desencontros e dos reencontros;
dos sentidos e das emoções;
das paixões e das contradições.

África,
dos amantes ardentes e dos amores fugazes;
dos sonhos váguos e por realizar;
da esperança tornada impossibilidade.

África,
do desejo recriado;
da vontade alimentada;
das recordações revividas… dia após dia.

Brígida Rocha Brito

http://quioca.multiply.com/reviews/item/569

Poesia – Minha Alma

*MINHA ALMA*
No íntimo do meu interior,
Na nudez de minha alma,
Sinto um mundo multicor.
A cor da dança e da poesia,
O ritmo que toca as cordas
do meu coração!
A voz da multidão!
Um semblante de paz.
Fim da fome,
Da miséria do mundo.
Brincadeiras de criança!
Um gole de felicidade,
Jeito de ser feliz
Dentro de tantas cores.
As cores da vida,
O baile da amizade:
DA MINHA COR,
DA TUA COR,
DA NOSSA COR.
Sem preconceitos,
Sem dor,
Uma tela multicor!
E, quando externalizo meus sentimentos,
Quando defronto com a crua realidade,
me recolho ou luto
para conservar meu ser,
minha alma!
SEM ME CORROMPER …
Enviado por Lucélia Muniz da França

O Choro de África

O choro durante séculos
nos seus olhos traidores pela servidão dos homens
no desejo alimentado entre ambições de lufadas românticas
nos batuques choro de África
nos sorrisos choro de África
nos sarcasmos no trabalho choro de África

Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal
meu irmão Nguxi e amigo Mussunda
no círculo das violências
mesmo na magia poderosa da terra
e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas
e das hemorragias dos ritmos das feridas de África

e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão
mesmo no florir aromatizado da floresta
mesmo na folha
no fruto
na agilidade da zebra
na secura do deserto
na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos
mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens

o choro de séculos
inventado na servidão
em historias de dramas negros almas brancas preguiças
e espíritos infantis de África
as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas

o choro de séculos
onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro
da desonesta forca
sacrificadora dos corpos cadaverizados
inimiga da vida

fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar
na violência
na violência
na violência

O choro de África e’ um sintoma

Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias
desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas – por nós!
E amor
e os olhos secos.

(Poemas, 1961) Agostinho Neto
(Kaxicane 17 de Setembro de 1922, – Moscovo 1997)

Ser negro…

Ser negro…
Não se resume à questão de pele.
Não se resume à questão dos cabelos crespos.
Ser negro é…
Sentir-se negro num país miscigenado.
Assumir as suas raízes.
Ser negro é ter…
Coragem.
Atitude.
Ser negro é…
Lutar para ser igual nas diferenças.
Acreditar que não é inferior a ninguém.
Ser negro…
Ter princípios.
Valorizar a beleza.
Ser capaz.
Fazer acontecer neste país onde pessoas
ainda são influenciadas por ideias pré-concebidas.
Enfim…
Ser negro é “ser humano”!

de Robélia Aragão
Nova Soure – BA

Rubens Alves escreveu:

Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo.
Pássaros engaiolados são pássaros sob controle.
Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser.
Pássaros engaiolados sempre têm um dono.
Deixaram de ser pássaros.
Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados.
O que elas amam são pássaros em vôo.
Existem para dar aos pássaros coragem para voar.
Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros.
O vôo não pode ser ensinado.
Só pode ser encorajado.

http://marimath.blogspot.com/

Conversa

– Eita negro!
quem foi que disse
que a gente não é gente?
quem foi esse demente,
se tem olhos não vê…
– Que foi que fizeste mano
pra tanto falar assim?
– Plantei os canaviais do nordeste
– E tu, mano, o que fizeste?
Eu plantei algodão
nos campos do sul
pros homens de sangue azul
que pagavam o meu trabalho
com surra de cipó-pau.

– Basta, mano,
pra eu não chorar,
E tu, Ana,
Conta-me tua vida,
Na senzala, no terreiro

– Eu…
cantei embolada,
pra sinhá dormir,
fiz tranças nela,
pra sinhá sair,
tomando cachaça,
servi de amor,
dancei no terreiro,
pra sinhozinho,
apanhei surras grandes,
sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa
tu tens pra contar…
não conta mais nada,
pra eu não chorar –

E tu, Manoel,
que andaste a fazer
– Eu sempre fui malandro
Ó tia Maria,
gostava de terreiro,
como ninguém,
subi para o morro,
fiz sambas bonitos,
conquistei as mulatas
bonitas de lá…
Eita negro!
– Quem foi que disse
que a gente não é gente?Quem foi esse demente,
se tem olhos não vê.

SOLANO TRINDADE

O Homem Invisível

Cresce e carrega suas tranças crespas
Descendo e subindo as ladeiras [da vida]
Erguendo a cabeça pro impossível
Causando inveja
Presenteado de desdém
Rodeados de inimigos
Lendo piadas no jornal
Correndo contra o tempo
Veloz como o vento
Pois, a oportunidade não o espera
Nem, dele, se faz refém
Cheio de crenças
Tantos santos e oferendas
Nesta terra imensa
Assoberbada de incertezas
Que só a chuva e a natureza
Querem seu bem
Menino, negro, menino!
De um grão faz seu destino
Ouve tantos papos
Poucos incentivos
Mas não deixa apagar
A luz intensa lá de dentro
Do seu mais intimo infinito

Nem esquece o que disse
A voz da sabedoria:
“Menino negro
Negro, menino
Acorde, Lute!
É hora de conquistar
Acorde, Lute!”

de Celizio de Souza Conceição Filho

SOU NEGRO

A Dione Silva

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Luanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh’alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação…



(Solano Trindade)